sábado, 26 de junho de 2010

Cartas

Ontem fui dar com um pequeno baú onde guardei cartas que me escreveram nos anos '90. Nessa altura não havia mail, os telemóveis tinham acabado de surgir e as tarifas de telefone eram mais proibitivas do que agora. Portanto, para se manter o contacto com os amigos, escreviam-se cartas.

[Aliás, quem não se lembra de ter os "pen pals" (ou correspondentes, em português), através de uma organização qualquer que não me lembra agora o nome, de quase todas as partes do mundo?]

Ao viajar no tempo através das cartas que tenho ali guardadas (ainda me dei ao trabalho de ler algumas delas), fiquei realmente espantada com o pouco que dizíamos numa simples carta. E fiquei ainda mais estarrecida quando constatei que actualmente nem sequer se escrevem e-mails a dizer um simples "olá, como estás? aqui estamos todos bem. dá beijinhos à família". Hoje, os e-mails servem para enviar os malfadados "forwards" ou para chatear com questões de trabalho. Há que tempos que não recebo um e-mail de alguém amigo para pôr "a escrita em dia".

Ontem reli cartas de pessoas acerca das quais não sei nada actualmente. Reli cartas de pessoas que seguiram rumos que não se cruzaram mais com os meus.
Também reli cartas de pessoas que ainda hoje são minhas amigas. Que estão no topo da lista dos melhores amigos que tenho. E não deixa de ser engraçado constatar que se todos evoluímos na vida, uns mudaram a sua forma de estar mas outros continuam a ser completamente frenéticos e cheios de garra.

Algo recorrente nas cartas que reli foi algo do estilo "as adversidades com que nos deparamos agora só servem para nos tornarmos mais fortes. vai ficar tudo bem, vais ver".

Não deixa de ser impressionante que pessoas que estavam a terminar a adolescência tivessem essa noção optimista da vida. Numa das cartas, uma amiga dizia-me algo como isto "se não conseguir fazer esta cadeira agora, faço depois. temos muitos anos pela frente". A noção que tínhamos do tempo era fascinante... "muitos anos pela frente"... e fazendo justiça à minha amiga, ela não era uma baldas... era apenas um artifício que usava para não dar em doida com os exames.

Se de repente me desse para pegar na minha agenda e em papel de carta para escrever às minhas amigas e aos meus amigos, pergunto-me quantos me respondiam de volta da mesma maneira. É que a julgar pelos cartões de boas festas que envio e que não obtêm resposta, acho que ia ter uma grande decepção....

Que saudades de receber cartas! Que saudades!

6 comentários:

S* disse...

A última que recebi foi há dois anos e trazia um presente... é lindo. Tão íntimo.

Ana disse...

Nem me lembro da última vez que escrevi ou recebi uma carta. Infelizmente, são hábitos que se vão perdendo e outros vão ganhando espaço.
Mas eu tenho o hábito de mandar mails ao meu pessoal... umas vezes apenas para dar um "bom dia", outras para manter longas conversas quando não é possível faze-lo por telefone ou pessoalmente.

Gosto do contacto com as pessoas, de manter a proximidade, de criar e manter laços, se bem que nem sempre existe a mesma vontade do lado de lá:-)

Ana disse...

Não há nada como uma carta bonita! Há muito tempo que não escrevo uma. :) Ainda me lembro de ir comprar daquele papel tecido com estampado de flores ou folhas secas, para escrever cartas todas fofíssimas e apaixonadas! lol Agora mando uma mensagem e tá bem bom...

PKB disse...

ehehehehe Eu fazia colecção de folhas de papel de carta, de blocos de notas, etc... ainda a tenho!

Rafeiro Perfumado disse...

Tenho aqui um duqe de paus, queres que to envie?

Anónimo disse...

Aceita, caramba, o duque de paus! Pelo correio, claro! Pois... É no que dá a prévia definição das coisas... Georges Simenon dizia que preferia escrever à máquina (lembram-se da máquina de escrever?), em vez de escrever com caneta (caneta, sabem? Pelikan, Montblanc, Parker...), porque tinha a tendência de se abrir no manuscrito, e era-lhe desconfortável ver-se autobiografado quase sem dar por isso. Pois é, cada coisa tem os seus efeitos próprios...